
Aproveitamos, eu e o Shwasy, para fugir à rotina do dia da revolução dos cravos, esquecer os discursos anémicos das nossas figuras de estado a propósito do fado de ser português e os desfiles sem brilho nem fulgor na Praça do Império, ou sei lá onde, e voltar a Sevilha para visitar a Feira de Abril. Bem...Não sei como começar? Foi um dia e tanto! O dia começou por volta da meia noite com a saída do Algarve em direcção à vizinha Andaluzia. A viagem foi longa e só chegamos ao quarto do Hotel depois das seis horas locais. Falar em quarto de hotel é força de expressão; aquilo eram as águas furtadas de um «hostal» de terceira categoria, no centro de Sevilha. E foi a opção entre dormir numa espécie de cama e o próprio assento carro que lá nos levou. Claro que não procuramos nos hoteis de cinco estrelas, mas pensamos que estavam completos como todos os outros em que suplicamos um quarto com casa de banho, mas só aquele humilde hostal tinha um que mais parecia a estrebaria onde Maria, mãe de Jesus, sofreu as dores do parto no momento em que O deu à luz. Tivemos que esquecer a casa de banho, estavam todos ocupados e desejada ficava no piso de baixo.
Acordamos, mal dormidos, com o vozeirão de matrona andaluza a dizer que tinhamos que deixar o quarto enquanto batia à porta com energia suficiente para fazer estremecer a lampada florescente que se segurava na parede, sobre o lavatório. Descemos as escadas pouco depois, com um «hasta luego» mal humurado, ainda pensando nos cinquenta euros pagos pelo colchão miserável em que dormimos, qual anjinhos cansados da noite sevilhana.
Ao enfrentar o sol junto à porta do inesquecível «hostal», encandeados com a luz do dia, quase tropeçamos com um padre enquanto do outro lado da rua caminhavam apressadas duas freiras, vestidas a rigor. Comentamos que ia ser, seguramente, um dia abençoado e avançamos esfomeados à procura do pequeno almoço que não nos quizeram servir, no primeiro «bodegon» onde entramos, devido ao adiantado da hora, pensamos nós.
Um taxi para ir para a feira era, agora, tudo o que precisavamos. Junto ao Corte Inglês da estação de Santa Justa ficamos a saber que havia «huelga» de taxistas e meio mundo queria ir almoçar na feira. O trânsito da cidade estava um caos devido ao acontecimento e às obras do metro que esventram muitas das avenidas principais. Mas mesmo neste caos organizado, é assim que Sevilha sabe viver, o «glamour» dos dias de feira de Abril era visível por todos os recantos da cidade. Para resumir a ida e volta da feira custou a módica quantia de 25 euros! Eram mais do que horas de almoçar e sentamo-nos numa restaurante de feira, daqueles que cheiram a frango assado e a fritos por todos os lados e pedimos uma salada e uma paelha acompanhada de um cerveja, bem fresca, que os termómetros da cidade já marcavam 26 graus e o sol escaldava a imprópria t-shirt preta que levava vestida. A Paelha estava de dar ao gato, a salada vai que não vai e a cerveja fresca matou a sede. Mais uma nota preta para pagar aquela zurrapa, mas a boa disposição não se dissipava.
Aquela feira é certamente um espectáculo único no mundo!É uma manifestação exemplar do orgulho andaluz. Naquele local pode-se absorver com todos os sentidos o que é ser sevilhano. O espaço onde se come, se bebe, se dança, se canta, se desfila foi enfeitado para a ocasião com todo o cuidado. A animação torna-se contagiosa. O som do canto e do bailado das «sevillanas» que vem do interior das «casetas» mistura-se com o som do trote dos cavalos que passeam nas ruas montados por jokers vestidos a rigor ou das charretes transportando belas mulheres em «trajes de flamenco» exuberantes. Nos passeios, ranchos de jovens sevilhanas vestidadas a rigor desfilam, conversam ou riem alto enquanto os homens lhes lançam um olhar galanteador bem latino. Completa o ambiente de festa o cheiro a bosta de cavalo misturado com o dos pratos que se servem nas «casetas». O colorido dos trajes, as fachadas todas iguais e todas diferentes e a decoração das ruas não deixam ninguém insensível ao glamour e à alegria e ao orgulho que desfila pelas ruas. É uma festa para os sentidos que chega a emocionar ao sentir no ar a alegria de viver daquela gente.
Como eu gostaria de ver em Portugal uma demonstração semelhante do prazer de ser português!
Foi uma tarde fantástica! A boa disposição é contagiante e estar entre gente que se sente bem faz-nos sentir melhor ainda!
O resto da tarde até ao jantar é inconfessável!?
O jantar, já tarde, foi também um momento de boa disposição, onde não dispensamos os «revueltos à la casa» ( divinos!). O vinho tinto aumentou a boa disposição e as vistas ( logo três) abriram o apetite para mais um passeio que não conto porque este post já vai demasiado longo...
Recolhemos aos nossos confortáveis aposentos por volta das 3 horas nacionais porque hoje era dia de trabalho para ambos.
E como foi doloroso voltar ao trabalho!... uff!
Vale a pena uma visita a Sevilha durante a Feria da Abril que se realiza sempre uma semana depois da Páscoa.
Quanto estiverem disponíveis prometo algumas fotos.