A noite tardava apesar dos dias minguados pelo avanço do calendário rumo ao Inverno. Sinto no ar uma contradição entre o encolher dos dias e o sol que teima em aquecer tardes de praia pelo Outubro dentro. O céu estava imaculado sem um farrapo de nuvem, e lembrei-me que há um ano atrás desfrutava de um sol assim, embora numa latitude a descair para o Trópico de Câncer. Em Maspalomas as noites eram mornas e vivas e os dias claros e quentes como no Algarve de hoje.
A propósito deste pensamento, voltei a lamentar-me por estar ali a tomar uma bica e não a degustar uma italiana à sombra do Coliseu, junto às ruínas de Pompeia ou em Florença como havíamos planeado. Ainda pesquisamos na Net o como e o onde e depois todo o plano se desvaneceu. As férias de Outubro caíram por terra e a Itália do sul vai ter que esperar por nós.
Em Dezembro, Madrid ,outra vez...Talvez. Do mal o menos!
Antes de me concentrar na leitura olhei de novo a praça: arrumada, branca, tranquila como nos países que planeiam as cidades para as pessoas. Os
telhados de quatro águas, sobre a Tavira das muitas igrejas, convencem-me, mais uma vez, que o preço a pagar pela preservação do passado vale bem a pena. A qualidade de vida e visibilidade que dá às urbes que negaram prostituir-se aos especuladores imobiliários é uma mais valia para o futuro.
Chegou o café. Enquanto procedia ao ritual de o preparar dei-me conta que o castelhano era o idioma dominante naquela esplanada. Crianças saltavam por todo o lado em gargalhadas de liberdade, nas pedras do anfiteatro misturadas, com bicicletas que cruzavam a praça em silêncio. As cidades têm definitivamente de reservar espaço para as pessoas e para a vida.
Mergulhei no livro, pressentindo ao longe o silêncio do Gilão a crescer em direcção à nascente contrariando as regras da natureza. Depois de o ler, até páginas tantas, zanguei-me com o narrador. Estava parvo? Estava a falar d
A alma trocada como se um fenómeno sobrenatural explicasse a homossexualidade do personagem maior? Fiquei desanimado com o rumo que o conto levava, a meio do seu percurso, e quase o deixei de lado. Mas antes de sair de casa tinha resgatado o pequeno volume do abandono, por descargo de consciência, e pensei que era melhor ficar a saber como aquilo tudo acabava. Passadas poucas páginas percebi que tinha sido enganado. Ou melhor tinha sido um leitor ingénuo e pouco perspicaz. O narrador encaminhou a intriga para me fazer a creditar que realmente havia uma alma trocada devido a um fenómeno estranho. E eu não percebi que estava a ser arrastado para acreditar naquilo que não queria. Como é que eu não percebi que todo aquele mistério teria uma explicação totalmente mundana, humana e natural. Reconciliado com o narrador comecei a identificar-me com as suas dores, com as suas arrelias e com as suas maldades. Uma das suas grandes maldades chamava-se Justino Trovoada que lhe arrebatava os sentidos, lhe subjugava o corpo, lhe impregnava a memória de cheiro a feno cada vez que se encontravam.
Tenho pena de não ter um Tinito na minha vida como ele. Tenho apenas um Hugo. Tal e qual. E ter um Hugo sem ter um Tinito é muito bom, mas sabe a pouco. Enquanto pensava nisto ouvi um escangalhar de bicicleta e um Oh!, quase em coro, de quem observou a queda de um rapaz que planeou mal o salto sobre os assentos do anfiteatro da praça. Ainda criou algum suspense, mas lá se levantou e seguiu sem mais tropelias. Eu não tenho um cigano como o Justino Trovoada na minha vida porque ele morreu. Falo a sério. O meu ciganinho chamava-se Ricardino e não era cigano. Era mais do género menino de rua (mas nessa época éramos todos meninos da rua) uns anos mais velho que eu. De chumbar tantos anos na primária acabamos frequentando a mesma classe durante dois anos seguidos. Foi nele que senti pela primeira vez o cheiro de um homem. Aos 12/13 anos já tinha barba e despertava em mim uma atracção inexplicável. Fomos vizinhos ainda antes dos tempo de escola por isso éramos muito próximos. Na escola tinha uma atitude protectora em relação a mim. Embora a minha primeira brincadeirinha sexual tivesse sido com uma menina era o seu odor e o seu toque que me remexiam por dentro. Ainda hoje recordo essas brincadeiras em tudo semelhantes às do ciganinho Justino e do menino Téo. Repetiram-se duas ou três vezes e ainda hoje me pergunto que estranho respeito o levou a não forçar nada mais ousado. O Ricardino era um perfeito gandim. Fez a quarta classe por favor. Não me surpreendeu a sua vocação delinquente que rapidamente fez dele o principal suspeito pelas motorizadas desaparecidas aos vizinhos. Depois quando a gasolina acabava fazia chichi para dentro do depósito e abandonava-as onde calhava.
O Ricardino adquiriu desde a infância aquele ar malvado e maroto que impressionava os mais novos. Ele não tinha que fazer os TPC, nem ajudar os pais a cuidar da horta como eu. Era livre, grande, forte, um homem já. Quando ainda com nove anos fui para Olhão fazer o 1º ano do ciclo preparatório afastamo-nos definitivamente. Depois comecei a escutar com interesse, da boca da minha mãe, as tropelias em que estava sempre envolvido: roubo de bicicletas, depois as motorizadas foram a sua perdição, a sua imagem de marca. Ainda adolescente teve um acidente de motorizada na nacional 125. Um carro colidiu contra a motorizada que conduzia e assim terminou a curta vida daquele que se tivesse vingado poderia ter sido o meu cigano Tinito.