sábado, outubro 20, 2007

UM REFERENDO INÚTIL


As próximas semanas serão marcadas em Portugal por uma discussão política a que os portugueses vão responder com uma mudança de canal televisivo para ver o que se passa na casa dos reality shows em exibição. Os políticos, esses vão achar o máximo, discutir se o tratado de Lisboa deve ou não ser referendado pelos portugueses. Os nossos políticos vivem num mundo aparte e não percebem que os portugueses se estão borrifando para os referendos. Eles que têm demonstrado ao longo dos últimos anos que não trocam um dia de sofá, de praia ou uma ida ao Shopping por um voto num referendo qualquer. Nem a regionalização, nem o aborto foram suficientemente apelativos para que fossemos votar de forma a tornar esses referendos vinculativos. Mas apesar disso os políticos que acreditam no Pai Natal e que os meninos vêm de Paris no bico da cegonha vão lutar pela ratificação em referendo de um tratado que define como é que a Europa vai ser governada a partir de agora. Se a tese do referendo vingar, o que não acredito, vai ser giro ver os políticos a pregar às flores do campo, aos peixes do Tejo e às aves do céu para que votem contra a perda de deputados em Estrasburgo, contra o fim das presidências rotativas e do comissário garantido e contra a lamentável perda de soberania.

Será uma escusada perda de tempo e dinheiro e um factor de distracção dos portugueses sobre as coisas que realmente interessam. Quando temos um governo e uma oposição que não põem na agenda política questões que interessam aos cidadãos, mas não são prioritárias quando comparadas com o desemprego, o crescimento económico, a saúde e a justiça para além da educação, vão agendar um referendo deprimente, porque mais desinteressante não há que dizer se concorda ou não com um emaranhado de regras que permita à União Europeia funcionar.

Eu perguntaria ainda, com toda a inocência que há em mim, quando é que um governo pode tirar das suas prioridades de governação os temas que referi? Será que algum governo pode deixar de se preocupar com o desemprego, a saúde, a justiça, o crescimento económico? Com esta forma de pensar nunca se abordarão questões consideradas menores, porém fundamentais para o desenvolvimento social e económico do país.


Nunca nos convidaram a pronunciar sobre a entrada e permanência na UE. Nunca se fez uma discussão profunda em Portugal sobre os prós e os contras de termos integrado este clube e agora querem que digamos não ao fim das presidências rotativas?

Preferia que se marcasse um referendo com um objectivo de amarrar os portugueses à UE de corpo e alma e acabar com a desconfiança que estamos lá apenas porque Soares e Sá Carneiro assim decidiram sem nos perguntarem nada. Certamente o referendo não ia decidir nada porque não seria vinculativo, mas pelo menos o nosso povo ficaria mais consciente do que é ser europeu e pertencer à UE com toda a perda de soberania que tal decisão encerra.

1 comentário:

Maurice disse...

É uma espécie de reality show para a classe política... :)

Abraço