
A propósito do encerramento de escolas do ensino básico, prometido pelo governo para o Portugal das pequenas aldeias, as reacções que a medida tem vindo a provocar fazem-me lembrar levemente as reacções dos mulçumanos às caricaturas de Maomé. Vão-se afinando ensaios de manifestações e actos de revolta que o país urbano não compreende tal como o ocidente não compreendeu a indignação do povo islâmico. Não resisto a referir o argumento de um pai para discordar do encerramento da escola do seu filho: dizia ele - «Querem fazer os petizes irem a vomitar nos autocarros até à escola; tantos quilómetros!»
Argumento simplesmente avassalador!
Os portugueses que se aventuraram por mares desconhecidos, repletos de monstros, em busca de outros mundos, em tempos idos, hoje, parte deles dedicam-se meticulosamente a plantar couves no quintal lá de casa. A população portuguesa é pouco móvel, não viaja, não sai da sua aldeia. Quando muito vai à sede de concelho na camioneta da carreira e volta, quanto mais depressa melhor, porque as galinhas têm fome e as couves sede. Ainda hoje, basta conduzir umas dezenas de quilometros em direcção à serra algarvia para encontrar quem nunca tenha visto o mar! Pelo país interior, a cena repete-se com insistência.
Somos um país de emigrantes. Conheço muitos e confunde-me verificar que muitos dos que viveram por essa Europa fora, quando voltaram e construiram a sua casinha e compraram a sua hortinha, não voltaram com uma visão do mundo mais aberta do que aquela com que sairam. Mais parece que nunca cruzaram a fronteira e sempre labutaram na aldeia que os viu nascer. Não é que não tivessem contactado com outras culturas e outros modos de ver o mundo, antes esqueceram, e ignoraram porque repudiaram o que viram. O aldeão acredita que a sua moral e a sua forma de vida está de acordo com as leis de Deus e da natureza por isso não tem nada a aprender, nem adoptar os hábitos dos outros, repetir os seus preceitos ou pactuar com a sua moral. O emigrante não se misturou. Por isso regressam com a mesma visão curta do mundo com que sairam. O mundo rural preserva, a todo o custo, o provincianismo da sua forma de estar porque a crê, moral e eticamente, superior.
As famílias do interior rural tem dificuldade em aceitar que os seus filho, crianças indefesas e frágeis possam ser levadas dias inteiros para a cidade, longe dos seus olhos e dos seus cuidados onde abunda a falta de valores e uma moral duvidosa. O mundo ideal é a aldeia, a vida ideal é a que reforça os laços familiares onde as crianças são protegidas das garras da cultura decadente do mundo urbano. O governo pode contrapor a necessidade de socialização, de convívio, de novas experiências, das brincadeiras com outras crianças, mas esse argumento não

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