sexta-feira, fevereiro 24, 2006

ESCOLAS IMPERFEITAS


A propósito do encerramento de escolas do ensino básico, prometido pelo governo para o Portugal das pequenas aldeias, as reacções que a medida tem vindo a provocar fazem-me lembrar levemente as reacções dos mulçumanos às caricaturas de Maomé. Vão-se afinando ensaios de manifestações e actos de revolta que o país urbano não compreende tal como o ocidente não compreendeu a indignação do povo islâmico. Não resisto a referir o argumento de um pai para discordar do encerramento da escola do seu filho: dizia ele - «Querem fazer os petizes irem a vomitar nos autocarros até à escola; tantos quilómetros!»

Argumento simplesmente avassalador!

Os portugueses que se aventuraram por mares desconhecidos, repletos de monstros, em busca de outros mundos, em tempos idos, hoje, parte deles dedicam-se meticulosamente a plantar couves no quintal lá de casa. A população portuguesa é pouco móvel, não viaja, não sai da sua aldeia. Quando muito vai à sede de concelho na camioneta da carreira e volta, quanto mais depressa melhor, porque as galinhas têm fome e as couves sede. Ainda hoje, basta conduzir umas dezenas de quilometros em direcção à serra algarvia para encontrar quem nunca tenha visto o mar! Pelo país interior, a cena repete-se com insistência.

Somos um país de emigrantes. Conheço muitos e confunde-me verificar que muitos dos que viveram por essa Europa fora, quando voltaram e construiram a sua casinha e compraram a sua hortinha, não voltaram com uma visão do mundo mais aberta do que aquela com que sairam. Mais parece que nunca cruzaram a fronteira e sempre labutaram na aldeia que os viu nascer. Não é que não tivessem contactado com outras culturas e outros modos de ver o mundo, antes esqueceram, e ignoraram porque repudiaram o que viram. O aldeão acredita que a sua moral e a sua forma de vida está de acordo com as leis de Deus e da natureza por isso não tem nada a aprender, nem adoptar os hábitos dos outros, repetir os seus preceitos ou pactuar com a sua moral. O emigrante não se misturou. Por isso regressam com a mesma visão curta do mundo com que sairam. O mundo rural preserva, a todo o custo, o provincianismo da sua forma de estar porque a crê, moral e eticamente, superior.

As famílias do interior rural tem dificuldade em aceitar que os seus filho, crianças indefesas e frágeis possam ser levadas dias inteiros para a cidade, longe dos seus olhos e dos seus cuidados onde abunda a falta de valores e uma moral duvidosa. O mundo ideal é a aldeia, a vida ideal é a que reforça os laços familiares onde as crianças são protegidas das garras da cultura decadente do mundo urbano. O governo pode contrapor a necessidade de socialização, de convívio, de novas experiências, das brincadeiras com outras crianças, mas esse argumento não é apreendido pelos pais. Esses argumentos, que para nós parecem lógicos, na defesa do encerramento de escolas onde aprendem as primeiras letras um, dois, cinco, dez alunos, isolados, são razões mais que válidas para lutar contra a medida governamental. Se não fosse ridículo as populações usariam esses mesmos argumentos para se opor à vontade da ministra da educação.

Sem comentários: