
O estado português, ou melhor as ilustres cabeças bem pensantes que governam e têm governado este país... ou melhor ainda, o sábio povo português: eu, tu, os vizinhos, os amigos; todos nós temos deixado que os cidadãos, a quem a vida não sorriu, sejam acantonados em guetos, pelo país fora. Os pobres, os imigrantes, os desajustados da sociedade têm vindo a ser progressivamente arrumados em Vilas D´Este, em Casas Pia, em Oficinas de São José. Assim as nossas consciências ficam tranquilas, porque fizemos algo pelos mais desfavorecidos e vemo-nos como verdadeiros cristãos benevolentes e compassivos. Demos casas a quem vivia em barracas, demos escola a quem brincava na rua, demos pão a quem comia restos. Vamos dormir descançados porque melhoramos a vida daqueles para quem a vida foi madrasta. Amén!
Esquecemos, depois como se vive nas vilas d`Este que proliferam pelo país, como se protegem as crianças das casas pias e como se educam os adolescentes que aprendem nas oficinas de São José. A vida que proporcionamos a uma enorme percentagem dos nossos concidadãos é degradante e miserável. Claro que não temos a culpa toda, quem lá vive também não é inocente.
Finalmente quando espreitamos para dentro destes guetos apercebemo-nos do barril de pólvora que criamos do outro lado da rua. Quando nos deparamos com os seus habitantes na cidade e somos roubados, assaltados, maltratados, insultados por eles, organizados em gangs de marginais, acusamos o governo, as autoridades de não terem mão no país. Sentimos a ameaça e temos medo. Mas nunca nos revoltamos contra a construção de bairros sociais e instituições para jovens desprotegidos onde se agrupam pessoas que juntas não tem outro remédio do que organizar-se e vir para a cidade reclamar de forma violenta aquilo que lhe foi negado ao serem marginalizados em lugares e instituições que marcam para todo o sempre quem neles vive.
É urgente inverter a trajectória: pessoas com problemas socio-económicos não podem ser enviadas para espaços onde o estigma as marcará e impedirá que daí voltem a sair. Porque não ajudar os mais desfavorecidos integrando-os nas cidades, em casas, escolas, e instituições «normais» que não os marquem negativamente, nem os obriguem a organizar-se em gangs de delinquentes para reclamar a vida que lhes foi negada, roubando e ameaçando a segurança das populações?
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