quinta-feira, fevereiro 23, 2006

NOTÍCIAS CHOCANTES


O Algarve amanheceu frio e chuvoso. As rádios locais falavam, mesmo na possibilidade de voltar a nevar no topo das serras algarvias. Chovia quando saí de casa. Já com os minutos contados, para fazer os 74 quilómetros que me separavam do momento de abrir a porta da estação, liguei o auto-rádio na Antena 1. Eram 8 horas e o serviço noticioso iniciava com uma notícia chocante: um grupo de jovens adolescentes tinha morto ao pontapé e à pedrada um sem-abrigo de 40 anos, conhecido travesti da cidade do Porto. Depois voltaram ao local do crime e jogaram o cadáver para um fosso. Fiquei consternado e pensei que sociedade é a nossa que solta na rua bandos de crianças capazes de cometerem crimes medonhos como este? São crianças negligenciadas, sem esperança numa vida digna, sem igualdade de oportunidades, sem «família», sem estabilidade emocional, sem tanta coisa?... Mas pergunto eu: somos crianças até que idade? Não somos adultos quando vamos para os parques das cidades, ganhar dinheiro, vendendo serviços sexuais. Não somos adultos quando roubamos o carro do vizinho? Não somos adultos quando matamos um homem debilitado, sem abrigo, descriminado por ser travesti? Só deixamos de ser crianças quando a lei manda, então mude-se a lei que eu quero ser criança até morrer.

Mas as notícias chocantes não ficavam por aqui. Ao abrir o jornal, enquanto repunha os níveis de cafeína no sangue, li o que Teresa e Lena estão a passar neste momento. Os vizinhos que até há pouco não se tinham mostrado incomodados com a sua presença na aldeia de Oiã apresentaram-se à porta de sua casa para as injuriarem e ameaçarem por fazerem barulhos estranhos à noite e incomodarem os vizinhos. Indignei-me com o rol de invenções sobre a sua conduta moral e social, fruto da imaginação colectiva de gente ignorante, movida por preconceitos homofóbicos. Só faltou afirmar que elas comem criancinhas ao jantar, lá em casa. A maldade fruto da ignorância e da intolerância ainda faz carreira por este país fora.
Imaginei os meus vizinhos a baterem-me à porta e acusarem-me de os perturbar à noite com barulhos estranhos, de receber muitos homens à noite, de ser muito escandaloso e não me privar de nada, de má fama, de dever e não pagar, etç, etç... Estremeci! Mas algo me diz que no Algarve, no litoral pelo menos, uma reacção semelhante é altamente improvável?
A Lena e a Teresa apresentaram queixa na polícia por injurias e ameaças.
A homofobia está agarrada à pele da nossa sociedade e não cai com a chegada da Primavera!

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