
Milhões de crentes, cruzam fronteiras na busca desse sonho. Milhares, senão milhões, de deserdados da sorte apróximam-se das fronteiras dos países ricos e como normalmente não são convidados a entrar, evitam pedir licensa e qualquer fresta serve para entrar no «paraíso». Depois de entrar, o milagre acontece. Para o bem ou para o mal o destino acontece. Uma reduzida minoria vê o céu; a esmagadora maíoria mudou apenas de inferno e fica a saber que o céu existe, está ali ao lado, mas é intocável para quem nasceu do lado errado do mundo. Esta realidade gera o desespero. Saber que o paraíso existe, lutar para ter uma pequena parcela dele, e tudo se conjugar para que nunca obtenha o seu quinhão dessa realidade gera frustração. A frustração gera ódio e o ódio gera violência.
O que acontece nestes dias na cidade luz é o resultado deste processo. Os países ricos não são países de igualdade, sobretudo para aqueles que não são seus filhos. Os países de acolhimento, não estão interessados em criar condições para dar igualdade de oportunidades aos seus imigrantes. As populações locais não estão preparadas para ver os seus governos gastarem fundos na integração de imigrantes que não foram convidados a vir, quando uma percentagem, não desprezível, da população local também não recebe da mãe pátria as mesmas chances que os seus outros filhos.
Os países desenvolvidos não podem continuar a acolher todos os cidadãos que se acercam das suas fronteiras. Fazê-lo é criar condições para conflitos sociais de base racial. É dar força às teses xenófobas e racistas da extrema-direita. É comprar pólvora para uma bomba relógio que vai explodir, mais cedo ou mais tarde no seio das nossas cidades. Que fazer perante este conflito de interesses?
A globalização económica criticada pela esquerda, que vê nela uma ameaça ao emprego, aos direitos dos trabalhadores, à subida dos salários nos países desenvolvidos e a exploração de mão-de-obra barata, o capitalismo sem coração nos países em desenvolvimento. E excomungada pela direita que vê a invasão de produtos baratos, produzidos no extrangeiro, a deslocalização do aparelho produtivo, e nas falências uma ameaça à integridade da Nação. Os povos ricos choram lágrimas de crocodilo pela pobreza do terceiro mundo, mas vê no seu desenvolvimento uma ameaça ao seu bem estar e recusam compartilha-lo com as economias emergentes. Apetece dizer entre um mal e o outro venha o diabo e escolha... Estamos, no entanto convictos que o diabo já escolheu. O processo de globalização parece já imparável. A acelaração deste processo e o seu alargamento a todos os países do mundo, em especial aos africanos que ainda não entraram no trilho do desenvolvimento parece surgir, neste início de milénio como a única vereda para evitar as convulsões sociais e políticas fruto dos conflitos gerados por ondas de imigrantes desempregados, desesperados por verem o paraíso recusá-los ante das suas tentativas de o alcançar.
Paris pode repetir-se em qualquer cidade europeia incluindo as nossas. Fazer algo por aqueles que já chegaram e dar esperança, no país de origem, aos que ainda não partiram pode ser a última oportunidade de travar a convulsão que está latente por todo o lado. Perante isto a globalização é um mal perfeitamente suportável para os países desenvolvidos que a médio e longo prazo podem tirar daí dividendos. No curto prazo fará correr algum sangue, a longo prazo é motivo de esperança num mundo melhor.
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