sexta-feira, novembro 04, 2005

OS ESCOMBROS DA PALAVRA



O éco de uma palavra pode ser ensurdecedor...

Uma palavra mal-dita, propositadamente ou não, pelo ministro do interior francês ateou fogos de ira, pela noite suburbana de Paris.
«RECAILLE»: eis a palavra que fez transbordar a frustração dos jovens, maltratados pelo poder francês, qual tsunami de ira, irrompe pelas ruas queimando, destruindo, vandalizando!
Quando Mr. Nicolas Sarkozy soltou a palavra maldita, provavelmente queria apenas piscar o olho ao eleitorado de direita, pensando nas eleições presidenciais a que se quer candidatar. O tiro pode ter-lhe saído pela culatra, pois os jovens de ascendência magrebina e africana tomaram o insulto como alavanca moral para justificar os motins que têm vindo a semear pela cidade luz e que já alastra a outras cidades francesas.Hoje, sua excelência o ministro, já se deve ter arrependido de ter proferido a palavra que ía agradar à direita que suspeita dos imigrantes, dos seus filhos e netos ainda que já sejam cidadãos nacionais.
Depois de se soltar a palavra não tem volta. percorreu léguas de boca em boca para o bem e para o mal, e quanto mais corre, maior é o seu poder de activar a ira, de revelar a injustiça, de soltar a frustração, mas também de unir e potenciar, numa irmandade, todos os que foram atingidos pela força recriminatória e segregadora da palavra «escumalha».
O poder nunca pode desleixar a sua linguagem, sob pena desse descuido se tornar um pesadelo para quem a descuida. Que o destino permita que a força desta palavra derrube o Sr. Sarkozy. E, oxalá as palavras «mal-ditas» continuem a fugir da boca dos políticos que nos governam pois só assim ficaremos a saber o que o poder pensa do povo que governa. As palavras politicamente correctas são balofas no seu conteúdo e estéreis nos seus fins.

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