Já passaram quase dois anos sobre a morte do meu pai. De tempos a tempos recordo-o, sem especial saudade. Nunca fomos muito íntimos; melhor não éramos íntimos, éramos pai e filho, nada mais. A distância separou-nos definitivamente.
Aos quatro anos as dificuldades financeiras da família empurraram meu pai para França. Penso que lhe foi dolorosa a decisão. Não era pessoa para aventuras, nem de grandes ambições, nem amante de mudanças. Deve ter odiado viver em Paris. Nunca falamos sobre isso. Por outro lado, deve ter adorado viver segundo as suas regras sem dar satisfações a ninguém, aí somos muito parecidos. Preferiu viver anos sozinho a levar a família para junto de si. Foi um erro que acabou por custar caro a todos.
Ter pai um mês por ano soube-me a muito pouco. Nunca compreendi a sua opção. À medida que os anos foram passando esse mês, em que regressava, parecia-me cada vez mais desnecessário.
Enquanto criança o regresso a casa, de meu pai, para as tradicionais férias de Agosto, começou por ser uma festa, passou a ser uma perturbação e tornou-se num quase constrangimento! Adorava revê-lo, mas a distância que ele cultivava entre nós foi-nos afastando um do outro irremediavelmente, à medida que eu ia crescendo. A ruptura aconteceu num ano em que ele me trouxe de presente uma boneca, quase igual à que trazia para a minha irmã. Na distribuição de brinquedos da fábrica onde trabalhava, não havia nada melhor para me trazer que aquela boneca. Atrasou-se e quando foi buscar o brinquedo não havia nada de jeito. Pegou nas bonecas e trouxe, não tendo comprado nada de específico para mim. Apesar de tudo brincar com bonecas não me agradava. Fiquei chocado e desiludido. Depois de um ano o meu pai vinha e não me trazia um presente! Foi a negligência mais dolorosa da monha vida. Nunca chegou a saber o rasgo que essa decisão provocou na nossa relação.
No ano seguinte, quando chegou, não o cumprimentei. Ele também não se dirigiu a mim para o fazer. Já sentados à mesa, para jantar, fez, então, a acusação. Já nessa altura era muito orgulhoso, e não esquecia as maldades que me faziam. Ainda hoje é um dos meus grandes defeitos.
Todos os anos na noite que antecedia a partida de meu pai eu ficava doente. Ia para a cama mais cedo. Odiava a sua partida ( isto antes do episódio que vos contei). Era como uma traição que se repetia todos os anos. Sentia-me desprezado. Abafava o soluço do choro no lençol até que minha mãe escutava e vinha saber o que se passava. Eu disfarçava dizendo que tinha dor de barriga, ou então, adormecia, exausto com os olhos vermelhos de chorar. No dia seguinte a vida voltava ao normal. A perturbação que a sua presença provocava no nosso dia a dia terminava. O meu pai tornava-se uma presença longínqua que não perturbava a minha existência até daí a 11 meses.
Esta reacção negativa ao reencontro e o sofrimento que me causava a partida ainda hoje me perturba, porque não ficou bem explicada na minha mente. Não soubemos lidar com esta situação. Nunca falamos sobre o assunto e se o problema morreu com o seu regresso definitivo, nunca morreu no meu íntimo.
Lembrei hoje de meu pai porque vi num filme um reencontro entre pai e filho. Andavam desavindos, fazia tempo, mas o bom senso trouxe-os ao encontro um do outro. Esta cena se repetida mil vezes, mil vezes me emociona. Eu e meu pai nunca fomos capazes desse reencontro. Ele faleceu sem nunca termos discutido o assunto. Um pouco cinicamente creio que ele não tinha consciência da sua existência. Ele faleceu sem nunca nos termos perdoado. Nunca perdoei ter-me deixado longe dele vezes sem conta e ele não me perdoou ter desejado ir com ele quando era ele que não queria ir.
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1 comentário:
Não houve reencontro entre ti e o teu pai. Às vezes não sei se não será melhor assim. Ao longo da vida, os meus sentimentos para com o meu pai foram variando entre o amor, ódio e indiferença. Eu procurei a aproximação, para mais tarde não ter de lidar com fantasmas. Houve reencontro, reconciliação ( pelo menos da minha parte). Quando ele morreu, atraiçoou-me. Soube que era tudo mentira da parte dele e,para ele, eu não significava nada. Uma chatice. Abraço Tó
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