sábado, junho 24, 2006

PAÍS DE TULIPAS MAIS DO QUE DE LARANJAS MECÂNICAS


A simpática Holanda, ou melhor os Países Baixos, que este é o nome correcto deste magnífico país do noroeste da Europa (Nederlands) volta e estar na boca dos portugueses por causa do futebol. Já aconteceu no nosso europeu de 2004 em que foi necessário vence-los para chegar à final e agora em Nuremberga vamos ter que os ultrapassar para continuar em prova. Mas deixemos o futebol.

Este país está no meu coração desde 1986. Foi na semana entre o Natal e o Ano Novo desse ano que fiz a minha primeira verdadeira viagem ao estrangeiro (antes tinha ido fazer compras com a mãe a Ayamonte, aqui do outro lado do Guadiana, e tinha visitado a Galiza por duas vezes.) Ir uma semana para Ultrecht foi uma oportunidade que não podia perder. Integrado num congresso evangélico que se realizava naquela cidade aproveitei. Numa excitação desmedida de quem começa a descobrir o que se passa lá fora (a televisão mostra muito pouco do que é fundamental ver, ouvir, cheirar e sentir) surpreendeu-me a cordialidade e simpatia dos holandeses, a arrumação e organização do espaço urbano, a salubridade, os edifícios bem tratados. Um deslumbramento que me fez de imediato pensar quando atingiria o meu país aquele nível de qualidade de vida.
Recordo como um momento fantástico da minha vida a visita ao museu do realejo naquela cidade que me mostrou como se faz um museu vivo. Já visitei grandes espaços museológicos pela mundo, mas aquele ainda considero o mais bem conseguido que visitei até hoje. Era um museu onde se via, ouvia, perguntava, conversava e se sorria. O espaço tinha fila de espera. De cada vez entravam 12 ou 15 pessoas, já não lembro, guiados por alguém que interagia com os visitantes de uma forma fantástica: pouco formal, descontraída, mas muito profissional.

A semana passava, acelarada, sem sol e sem chuva, fria e húmida de clima, mas quente e acolhedora de gente. Não esperava: sempre ouvia dizer que os europeus do norte eram frios e distantes! Um dia havia tempo livre para ir a Amesterdão. Comprei o bilhete, e entrei no comboio. Não demorou mais de meia hora e estava na estação central da capital. Saí e dei-me conta que tinha viajado para outro mundo, um mundo que eu desconhecia e não estava preparado para perceber de imediato. A praça frente à estação era linda: edifícios antigos, imponentes, como novos. Deslumbrava. Nos recantos havia pequenos grupos de jovens. Eram de origem asiática, africana, europeia, todos misturados com cabelos em pé pintados de cores berrantes, vestidos com extravagância, fumando e falando entre si como se não existisse mais ninguém por ali. Eram o famoso movimento PUNK que inundava a Europa central e que praticamente não se fazia sentir no nosso cantinho. Fui ao encontro da cidade e enquanto caminhava acredito que a minha boca se abria de espanto pelo que observava: eram montras expondo objectos que eu não sabia que existiam, eram grupos de jovens fumando cigarros estranhos que cheiravam a «alecrim», eram mulheres seminuas expostas nas montras aliciando-me para entrar na porta ao lado. Ganhei coragem e entrei numa daquelas loja que expunham, sem pudor, objectos e revistas com imagens de sexo! Olhei com mais atenção e vi que existia uma certa especialização havia lojas dessas que promoviam o sexo entre homens e mulheres e outras que era só para homossexuais. Se no Inverno de Amesterdão existissem moscas uma, pelo menos, teria entrado na minha boca! Eu era um provinciano total! Tinha vivido até ali protegido pelo medo do pecado e nunca havia explorado vidas alternativas. Tinha 21 anos e não sabia que existiam vidas alternativas. Para mim não havia visão alternativa ao mundo além daquela que a igreja Baptista filtrava para eu consumir. Eu sabia que tinham de existir outras f0rmas de vida fora da que a igreja me mostrava. Descobri, curiosamente numa viagem promovida pela igreja. Lá não incentivavam a visita a Amesterdão o que me fez querer realizá-la de imediato. Aí descobri que havia lugar para mim no mundo, que existiam milhares de pessoas como eu e que a minha vida não se iria tornar uma tragédia de solidão e incompreensão. Passado pouco tempo descobri, que afinal, aqui bem perto, em Faro, havia gente que sentia e pensava como eu.

Por esta razão até hoje os Países Baixos são o meu país alternativo. Se não me fosse tão difícil imaginar viver longe de Portugal a nação da rainha Beatriz seria a minha escolhida. É um grande povo e um grande país onde abunda a inovação, a tolerância, uma visão ampla do mundo, onde toda a gente é pessoa e a raça, a religião a orientação sexual, as preferências políticas são apenas pormenores que diferenciam seres humanos a quem o poder político e o povo em geral reconhecem a dignidade das suas diferenças e onde os governantes governam para o povo e a ditadura da maioria não cerceia os direitos das minorias como acontece por aqui, no meu país.

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