sábado, março 18, 2006

A MINHA CIDADE

Dei um passeio pela minha cidade, que tenho abandonado muito, ultimamente, em favor da vizinha Tavira. Tavira é mais charmosa, mais vistosa, com muitos anos de história, com monumentos e espaços que fazem bem a quem busca atranquilidade depois de uma semana buliçosa de trabalho.
À medida que lhe percorria as avenidas e ruas mais antigas recordei as primeiras visitas que lhe fiz quando, ainda puto, fui para o 1º ano do ciclo no ano de 75. Passado todo este tempo a cidade cresceu muito: novos bairros e urbanizações, muitos edificios novos, como quase todas no Algarve. Olhão é uma cidade sem grandes monumentos históricos. A cidade é relativamente nova quando comparada com Tavira, Silves, Faro ou Lagos. Os atractivos túristicos passam pela gastronomia, pelos mercados municipais, pelas prais das ilhas que delimitam a Ria Formosa e por uma arquitectura original na suas ruas mais antigas. Olhão não tem tradições culturais, não tem um comércio exuberante, não tem espaços verdes dignos desse nome. Mantém uma tradição piscatória cada vez menos visível, um linguajar típico das gentes do mar e tradições que se conservam a custo. Tem nas suas zonas mais típicas portas e janelas que enfeitam fachadas lindissimas de casas de antes da 2ª guerra; tem ruas estreitas, becos e vielas que mais fazem lembras cidades marroquinas; tem o branco e o ocre do sul envelhecido nas varandas das casas construidas como cubos para enfrentarem o calor do verão, entre outras curiosidades que quem a visita descobre ao fim de pouco tempo.
Pouco a pouco a vila que se tornou cidade foi perdendo na voragem da construção as suas casas construidas na primeira metade do século passado que ladeavam as duas avenidas principais e a rua do comércio, perdeu muito do negócio da prostituição que lhe deram a fama «de porta sim, porta não e para cima todas são», o Olhanense ,ainda que a dar nas vistas esta época, já não bate o pé aos grandes do futebol português. A minha cidade é hoje mais uma cidade dormitório onde os serviços culturais nunca vingaram, onde o comércio resiste à custa das 5 ou 6 grandes superficies instaladas na cidade e do mercado municipal, onde grande parte do Algarve compra o peixe fresco que chega diariamente às suas bancas.
As autoridades locais nunca tiveram um projecto para a cidade que não fosse a de capital da Ria Formosa. Nunca resistiram aos interesses imobiliários para lhe darem espaços verdes para a população respirar, nunca apostaram na cultura para tirar os jovens das ruas, dos cafés e bares onde os vícios convidam à marginalidade, nunca resistiram a deitar abaixo edifícios de interesse público para construirem prédios da mais rasca arquitectura. Os jardins de betão são muitos, o verde de uma árvore quase só na imaginação. A fama da cidade continua péssima. A delinquência juvenil, e não só, dão que fazer às autoridades, a marginalidade da prostituição e da droga mantêm viva a tradição de terra mal comportada, alimentada pelas populações carenciadas dos bairros sociais onde têm sido amontoadas. O insucesso escolar é dos mais elevados do país e o pior da região. Não se lê. Um semi-analfabetismo funcional grassa entre os adultos. A vida da cidade resume-se aos cafés e bares nocturnos. A cidade onde nasci cresceu, mas não se desenvolveu. Não tem qualidade de vida. Se continua a atrair mais habitantes isso deve-se ao facto dos preços das habitações serem mais baratos do que o das suas vizinhas tanto de leste como a oeste.
E a cidade de Olhão poderia ser tão melhor! Tem recursos, tem espaços, tem luz, tem gente, só falta quem tenha visão para lhe dar outro rumo.

Sem comentários: