
Enquanto no cinema, em frente, estreava o filme do momento eu, o meu companheiro de viagem e a minha irmã preferimos aproveitar a oportunidade para de ver ao vivo La Leyenda, apresentado pelo Ballet Nacional de Espanha. Agora que Faro tem uma sala de espectáculos ao nível das melhores que há no país, o Algarve tem sido, finalmente, premiado com algumas das grandes iniciativas culturais que chegam aos palcos portugueses. Há bem pouco tempo era necessário ir à capital tomar banhos de cultura, de vez em quando, para fugir à mediocridade cultural da província. Esses tempos acabaram. Mas muitos algarvios ainda não descobriram que os seus programas com as namoradas ou namorados e/ou família podem ir um pouco mais além do que uma visita ao shopping, seguida de um Big Mac e um filme cheio de efeitos especiais digeridos com muitas pipocas e coca cola à mistura. Alargar horizontes, sejam eles de que tipo forem, é do mais estimulante e proveitoso que se pode fazer na vida. O dinheiro gasto no Teatro Municipal de Faro foi, definitivamente, bem gasto, assim a população o saiba usar para o seu enriquecimento cultural.
O Ballet Nacional de Espanha trouxe à capital algarvia «La Leyenda»: o Flamengo no seu máximo explendor. A força e riqueza da cultura espanhola está bem vincada nesta expressão artística. Juntamente com a Tourada - arte que me provoca repulsa - esta é a demonstração do que há de mais genuíno e pulsante na alma espanhola. O desafio, a força, a sedução, o erotismo, do povo espanhol é descrito, pela bailarina de flamengo, sem meias palavras nem erros ortográficos no palco. Lá, o bailarino de flamengo é quase uma força da natureza que marca com o movimento das mãos, com a força dos pés e as ondulações do corpo o ritmo do que é ser espanhol.
A cultura do país vizinho é das mais ricas do mundo. Produziu génios como Picasso, Dali ou Miró, na pintura, Cervantes e Cela na literatura, Gaudi, na arquitectura, Caballé, Domingo ou Sanz na música entre outros vultos da cultura universal nascidos em Espanha. Gosto de Espanha e da forma de estar no mundo do povo espanhol e por isso mesmo não podia deixar de assistir ao espectáculo de dia 9, tal como não perderei no dia 30 de Março a magia de Joaquin Cortêz no mesmo palco. Gostaria que o português fosse mais espanhol e reflectisse na sua criação artística a alegria e a pujança de estar no mundo tal como o fazem nuestros hermanos.
Apesar da admiração que sinto pelo espírito de ser e estar dos nossos vizinhos não há nada que me toque mais fundo do que um poema de Pessoa ou de Torga, um fado na voz de Amália, uma escultura de Cutileiro, um quadro de Vieira ou uma obra de Siza. Ser português é pertencer a uma cultura enraizada no sentimento que se sobrepõe à razão; uma forma de estar assente no eu profundo e não no colectivo eufórico. As expressões artísticas da nossa cultura reflectem uma forma muito íntima de estar no mundo, uma forma única que nos distingue dos outros povos e por isso, e só por isso é a mais genuína Cultura do planeta. Assim ainda que invejemos maneiras mais vincadas e exuberantes de estar no mundo é com a nossa que sabemos ser nós e é com ela que contribuímos para engrandecer a cultura universal.
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