terça-feira, agosto 19, 2008

DE REGRESSO PARA JANTAR

Os jantares das terças-feiras com o Shwasy sobrevivem à contagem das estações. Neste infernal mês de Agosto são um verdadeiro oásis e uma pausa no castigo repetido, ano após ano, que é a obrigação de continuar a residir no Algarve no mês em que não há cão nem gato que não escolha a região para passar férias. Perdoem-me a falta de educação e o desabafo, mas se tivessem que prosseguir a rotina nos 31 dias que este mês tem, compreenderiam. É um verdadeiro atentado à nossa sanidade mental ver que 99.99% dos portugueses que passam féria no Algarve escolhem este mês para o fazer como se o resto do verão fosse impróprio para consumo! Continuo sem perceber por que razão não foi Agosto o mês escolhido para ter apenas 28 dias?!? Foi maldade e ainda por cima contemplaram-no com 31!
Dizia eu que ao terceiro dia da semana continuamos, após vários anos, o ritual de jantar fora juntos, com o enteado ou sem ele. Hoje preferiu ficar em casa a experimentar um jogo de computador novo e deu-nos «tréguas».
Todas as terças-feiras recebo um telefonema que invariavelmente termina com a pergunta: então, onde vamos jantar hoje? Salvo raras excepções a minha resposta é: algures, por aí. Depois logo se vê... Hoje não foi assim. A pergunta não ecoou no outro lado do telefone. Levou o filho e um seu amigo ao cinema. Foi à praia. Esperou que eu chegasse com os putos que apanhei à saída do cinema, na volta do trabalho, e estava pronto para ir jantar. Era surpresa o restaurante escolhido. preferiu ser ele a conduzir. Perguntei: onde vamos jantar? Não obtive resposta. Era surpresa. Tavira, depois Cabanas de Tavira, Cacela Velha e Nova, Altura... A surpresa estava guardada para a Praia Verde. Renovada e quase estranha, desde a última vez que por lá tinha passado. Para jantar, o escolhido era um restaurante sobranceiro à praia com o pouco inspirado nome de Panorâmico. Um lugar privilegiado com vista sobre a Baía de Montegordo desde a espanhola Isla Canela até à Manta Rota, a poente. Uma esplanada abençoada por uma brisa suave vinda do Atlântico ao fim da tarde, o acender escalonado das luzes nas cidades ao redor, a lua que ressuscitava entre o casario de Montegordo e a foz do Guadiana, o grande mar azul quieto, um céu a escurecer num anil perfeito, o cheiro suave a pinho e verde da mata envolvente e os derradeiros veraneantes que abandonavam o areal, já sombra completa, mas ainda morna do sol acabado de desaparecer no horizonte. O cenário perfeito para um merecido jantar depois de uma semana de trabalho desgastante para ambos. Merecíamos aquele espaço para saborear um sufflé de peixe e gambas de entrada, para mim e um salada verde com medalhões de lagosta, para ele. Depois a preferência pelas carnes que só pecaram por ter sido servidas quase à temperatura ambiente. Um Douro tinto realçou o aroma das ervas aromáticas sobre as carnes e condicionou os modos, a conversa e a disposição.
Passados todos estes anos ainda conseguimos conversar uma refeição inteira sem momentos mortos e inquietantes, sem paragens desconfortáveis. É uma das razões que me faz acreditar que com todos os defeitos que a nossa relação tem ainda temos fôlego para continuar. Sempre fico incomodado quando vejo casais jovens que conseguem engolir uma refeição inteira apenas cortada pela troca de meia dúzia de palavras de circunstância, sem um sorriso, sem a cumplicidade de uma troca de olhares: como estranhos que se alimentam frente a frente por força das circunstâncias. Ainda hoje ao almoço foi a última vez que observei um casal a quem o tempo roubou a capacidade de diálogo e no entanto ao saírem da mesa conseguiram procurar a mão um do outro, qual acto reflexo ou tentativa mecânica de disfarçar cumplicidades perdidas .
Apesar de todas as vicissitudes o diálogo é algo que continua a funcionar entre nós. Ele é um comunicador nato eu um casmurro introvertido, mas há qualquer coisa nele que me solta a língua, me desinibe e faz de mim um palrador sem freio na língua. Não há muitos humanos que se possam orgulhar de ter este efeito sobre mim. Ele é o que maior sucesso obteve até hoje.
Saímos do restaurante tão agradados com o espectáculo da refeição que o Shwasy pousou o seu braço esquerdo sobre o meu ombro, rodeando-me o pescoço de forma carinhosa e eu puxei-o para junto de mim cingindo-lhe a cintura sabendo que atrás de nós haveriam certamente olhos arregalados com a ousadia.
Soube bem a surpresa.

1 comentário:

Flávio Gonçalves disse...

Queria-te dizer que adorei imenso o post quer pela qualidade de escrita com que nos presenteaste (as descrições estiveram muito boas!) quer pelos temas que abordaste, o diálogo e a surpresa num relacionamento a dois, assuntos que tomo ainda como desconhecidos. Aproveito para te dar os parabéns pela relação que se mantém, ainda, é excelente ver que nada é forçado por aí.