
Não foi com Pessoa que que ganhei gosto pelos livros, mas foi com ele que aprendi a gostar de poesia. Autopsicografia foi um o poema que junto com «O menino da sua mãe li vezes sem tempo até me garantir o prazer de os dizer como se fossem meus: ditos de coração. Ouvir-me dizer alguns poemas de Pessoa dava-me um gozo semelhante ao de comer uma pequena tablete de chocolate Regina, das que o meu avô me trazia da taberna, ao anoitecer, quando eu era criança. Os poemas de Pessoa escorregam pela mente como o creme de um gelado da Gelvi, servido na esplanada da gelataria, numa noite de verão em que a aragem vinda da ria nos fazia sentir mais felizes do que realmente éramos. Ainda quase adolescente esta sensação de que os poemas de Pessoa me alimentavam a alma levaram-me a escrever sonetos (apenas um deixei publicar e todos os outros destrui quando o romantismo da adolescência deu lugar ao realismo da condição adulta).
Ainda hoje quando a vontade de nada fazer me assalta pego em Alberto Caeiro e percorro com ele os campos pastoreando as ovelhas do seu rebanho e amando a natureza e faço-me, como ele, apenas sentidos e não penso em coisa nenhuma ou então leio em voz alta a Ode Triunfal daquele «ganda maluco», o tavirense Álvaro de Campos, e pareço um louco exaltado e eufórico e ganho ânimo e vontade de fazer coisas, de ser moderno, de ser apenas um um robô sem sentimentos, mas vivo e capaz de coisas maravilhosamente modernas.
É no entanto o Pessoa, ele mesmo, que me estilhaça a alma, me perturba os sentidos, me desconstroi os pensamentos, me empresta uma vontade de não ter crescido, de ser outro sendo eu mesmo. Enquanto os outros são, regra geral, apenas um, o Poeta da Tabacaria é muitos em um e todos topo de gama. Só o facto de ter a mesma pátria de Fernando Pessoa compensa, em parte, ter a mesma nacionalidade que um tão grande número de pessoas que nunca leu a Mensagem.
PS: A Câmara municipal de Olhão inaugura amanhã, dia em que a cidade comemora os 200 anos da sua elevação a vila, a Biblioteca Municipal que espero que tenha nome de baptismo. Integrada na rede nacional de bibliotecas é um equipamento que há muito fazia falta à cidade. O espaço escolhido para instalar a nova biblioteca foi o do antigo hospital da cidade «Nossa Senhora da Conceição» que, imaginem, foi o local onde me orgulho de ter nascido. Melhor destino não lhe poderia ser dado.
Agora posso imaginar que no preciso local onde vim ao mundo está uma prateleira cheia de grandes obras da literatura universal ou apenas uma mesa onde as crianças da minha cidade podem ouvir contar estórias de príncipes e fadas e duendes e bruxas más e animais que falam. Magnífico!
Ainda hoje quando a vontade de nada fazer me assalta pego em Alberto Caeiro e percorro com ele os campos pastoreando as ovelhas do seu rebanho e amando a natureza e faço-me, como ele, apenas sentidos e não penso em coisa nenhuma ou então leio em voz alta a Ode Triunfal daquele «ganda maluco», o tavirense Álvaro de Campos, e pareço um louco exaltado e eufórico e ganho ânimo e vontade de fazer coisas, de ser moderno, de ser apenas um um robô sem sentimentos, mas vivo e capaz de coisas maravilhosamente modernas.
É no entanto o Pessoa, ele mesmo, que me estilhaça a alma, me perturba os sentidos, me desconstroi os pensamentos, me empresta uma vontade de não ter crescido, de ser outro sendo eu mesmo. Enquanto os outros são, regra geral, apenas um, o Poeta da Tabacaria é muitos em um e todos topo de gama. Só o facto de ter a mesma pátria de Fernando Pessoa compensa, em parte, ter a mesma nacionalidade que um tão grande número de pessoas que nunca leu a Mensagem.
PS: A Câmara municipal de Olhão inaugura amanhã, dia em que a cidade comemora os 200 anos da sua elevação a vila, a Biblioteca Municipal que espero que tenha nome de baptismo. Integrada na rede nacional de bibliotecas é um equipamento que há muito fazia falta à cidade. O espaço escolhido para instalar a nova biblioteca foi o do antigo hospital da cidade «Nossa Senhora da Conceição» que, imaginem, foi o local onde me orgulho de ter nascido. Melhor destino não lhe poderia ser dado.
Agora posso imaginar que no preciso local onde vim ao mundo está uma prateleira cheia de grandes obras da literatura universal ou apenas uma mesa onde as crianças da minha cidade podem ouvir contar estórias de príncipes e fadas e duendes e bruxas más e animais que falam. Magnífico!
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