
(Continuação)
Visitamos a aldeia das ruas pavimentadas pela areia do deserto e das casas fustigadas pelo vento. Os ocres poderosos nas fachadas ampliados pela luz do sol quase a ferirem os olhos. Os pátios interiores abertos, amplos, luminosos, cobertos de uma fina capa de areia. O mobiliário rudimentar quase inexistente em divisões iluminadas por uma nesga de luz que chegava através de janelins semi-cerrados. As crianças sorrindo. E uma mulher de pele quase negra, fustigada pelo vento e escurecida, em dobro, pelo sol: magoada. Viúva e digna como as nossas avós alentejanas enlutadas, recebeu-nos em sua casa. O pão para si e para os filhos ganhava-o a cada dia abrindo as portas do seu lar a estranhos, vindos de longe que comentavam a sua privacidade com palavras que não entendia. Escancarava a sua humilde existência enquanto oferecia um chá de menta a turistas que tudo vasculhavam sem pudor. Com uma curiosidade turística espreitamos todos os recantos, sem levar em conta o olhar triste daquela mulher que se via obrigada a abrir as portas de sua casa a desconhecidos. No final da visita fomos, como era esperado, convidados a contribuir com o que desejássemos para ajudar aquela família a suprir as suas necessidades. Só as mais elementares porque ali não havia vestígios dos pequenos luxos sem os quais nós já não sabemos viver.
Depois do esplendor dos templos, dos monumentos, dos túmulos dos faraós, dos mercados, do deserto, aquele foi o momento de ver as pessoas de perto. Apesar da incomodidade que é aceitar ter a sua casa vasculhada por estranhos, tenho de agradecer àquela mulher ter-nos aberto as portas da sua humilde existência. Não era miséria nem pobreza: era simplicidade digna, limpa, corajosa que marcava do seu lugar no mundo.
Nós somos mimados de mais para perceber o que é viver com o mínimo e continuar a querer viver. Apesar de ser perceptível por todo o país, só quando a vimos de perto nos sentimos tocados pela falta de recursos com que grande parte da população do planeta vive. Como seria habitar aquele lar? Como conseguiríamos viver assim? Tão limitados de conforto, tão privados do essencial, tão desertos dos luxos mínimos. E há quem viva, pelo mundo fora muito pior: a anos luz do rudimentar conforto daquela casa. Em boa verdade o único luxo visível naquele lar era o sorriso das crianças.
Com os pés aquecidos pela areia que escorregava, pelas ruas em declive, chegamos ao cais onde o barqueiro tinha amarrado a nossa faluca, idêntica a todas as outras que, em silêncio, navegavam sobre as águas empurradas por um vento morno vindo dos lados da Líbia. Fazia por gravar aquela paisagem, tão poderosa quanto simples, na minha memória. O Egipto é um país gordo de história, de paisagens e de gente como poucos. A visita tinha redundado numa lição de vida.
A enorme duna de areia atrás da aldeia já tinha raptado o sol até à manhã seguinte. O último passeio junto ao Nilo chegava ao fim. Estava na a hora de regressar à faluca quando ao longe comecei a escutar uma voz de criança que gritava: Laurentius, Laurentius! Percebi que era por mim que chamava. Olhei ao longe e lá vinha, correndo na minha direcção, o pequeno egípcio descalço com a boneca de madeira pintada, fechada na mão, erguida em frente ao rosto gritando: Laurentius! - Tu as promis!
Claro que eu tinha prometido comprar-lhe a boneca de vestido azul às flores com enormes argolas pendendo das orelhas e um pote de água à cabeça. perante a sua insistência não ia faltar à minha palavra. Não estava seguro que ele estaria lá no fim do dia. Quando lhe prometi comprar a boneca não me importava se lá não estivesse. Mais uma recordação para encher a mala de viagem já cheia de obeliscos de 5 quilos! Mas para ele não era indiferente estar ou não ali. Para mim deixou de ser depois de saber como fazia diferença comprar ou não aquela boneca . Cheguei a pensar que podia poupar uma libras se ele não estivesse. Mas não ele não se podia dar ao luxo de não comparecer. As poucas libras que ia receber faziam toda a diferença no orçamento familiar.
A boneca núbia está, agora, aqui ao lado a observar o que acabei de escrever e o eco da voz do jovem núbio continua a ecoar na minha mente sempre que olho para ela e vejo os olhos vivos daquela criança cobrando a promessa que eu cheguei a pensar que podia não cumprir: - Laurentius, tu as promis!

Com os pés aquecidos pela areia que escorregava, pelas ruas em declive, chegamos ao cais onde o barqueiro tinha amarrado a nossa faluca, idêntica a todas as outras que, em silêncio, navegavam sobre as águas empurradas por um vento morno vindo dos lados da Líbia. Fazia por gravar aquela paisagem, tão poderosa quanto simples, na minha memória. O Egipto é um país gordo de história, de paisagens e de gente como poucos. A visita tinha redundado numa lição de vida.
A enorme duna de areia atrás da aldeia já tinha raptado o sol até à manhã seguinte. O último passeio junto ao Nilo chegava ao fim. Estava na a hora de regressar à faluca quando ao longe comecei a escutar uma voz de criança que gritava: Laurentius, Laurentius! Percebi que era por mim que chamava. Olhei ao longe e lá vinha, correndo na minha direcção, o pequeno egípcio descalço com a boneca de madeira pintada, fechada na mão, erguida em frente ao rosto gritando: Laurentius! - Tu as promis!
Claro que eu tinha prometido comprar-lhe a boneca de vestido azul às flores com enormes argolas pendendo das orelhas e um pote de água à cabeça. perante a sua insistência não ia faltar à minha palavra. Não estava seguro que ele estaria lá no fim do dia. Quando lhe prometi comprar a boneca não me importava se lá não estivesse. Mais uma recordação para encher a mala de viagem já cheia de obeliscos de 5 quilos! Mas para ele não era indiferente estar ou não ali. Para mim deixou de ser depois de saber como fazia diferença comprar ou não aquela boneca . Cheguei a pensar que podia poupar uma libras se ele não estivesse. Mas não ele não se podia dar ao luxo de não comparecer. As poucas libras que ia receber faziam toda a diferença no orçamento familiar.
A boneca núbia está, agora, aqui ao lado a observar o que acabei de escrever e o eco da voz do jovem núbio continua a ecoar na minha mente sempre que olho para ela e vejo os olhos vivos daquela criança cobrando a promessa que eu cheguei a pensar que podia não cumprir: - Laurentius, tu as promis!


5 comentários:
Caro bloger...(eu diria antes escritor, apesar desta minha observação valer o que pode valer). Espaçadamente entro no seu blog, e fico sempre deliciado com o que escreve (não apenas, é certo). Quem me dera...nas não.
Hoje fiquei comovido. Há cerca de 2anos fiz o mesmo percurso...
ligeiramente mais completo, ao que julgo, porque estive em Alexandria, também.
Não é que partilho consigo esse sentimento em relação ao Egipto em geral, mas em particular à Núbia que nos fica para sempre de modo especial.
Não na Núbia, mas no cairo, no Bazar que certamente visitou, ficaram-me os olhos e o pensamento numa criança, penso que adolescente, uma rapariga, ainda sem as vestes que cobrem as mulheres da cabeça aos pés, que no meio da multidão lutava desesperadamente para trocar moedas (que recebia das parcas vendas)por notas que poderia trocar num banco por libras egípcias. A força (mais desespero)fizeram-me desejar voltar lá um dia e procurar aquela criança - a deixar de ser)e procurar saber com era a sua vida (em geral a vida do egípcio é muito difícil, como lhe devem ter dito). Porque vi nela, não só as crianças que me são próximas e que me preocupam particularmente, mas todas as crianças do mundo...senão a humanidade. Naquele país senti, de forma quase imperceptível, por entre o lixo dos canais, o pão estendido no chão, nos mega-condomínios de luxo,no interior da grande pirâmide...e particularmente na Núbia, a sabedoria de que falavam e buscavam os gregos (mais tarde os romanos), já então, turistas no Egipto.
Nota; Se fosse egípcio, sentir-me-ia bafejado pelos deuses pois nasci no dia em que a emanação de Re acaricia o seu bem-amado filho Ramses em Abu-Symbel.
Fernando Jorge
Olá mais uma vez!
Mais um belo texto, ilustrado por excelentes fotografias.
Foi para mim um prazer ler esta crónica, que me permitiu recordar as minhas próprias memórias e impressões de viagem. Também eu fiz exactamente o mesmo percurso há uns oito anos! E fiquei encantado e deslumbrado com a aldeia núbia!
Como afirmei num comentário que aqui deixei há umas semanas, acho urgente e imperioso que trates de publicar em livro uma selecção dos teus melhores textos, com que nos premeias diariamente aqui no blog "De corpo e alma". O que não te falta é veia de escritor, talento e sensibilidade. Vê se a aproveitas! Há por aí tanta gente a publicar livros perfeitamente medíocres! E tu, com todo esse talento, por que esperas?
Acho que um livro de crónicas seria uma excelente ideia e provavelmente terias sucesso e serias bem recebido pelos leitores e pela crítica!
Pensa nisso a sério!
Um abraço de um dos teus fãs e leitores mais assíduos. Espero que nunca abandones a escrita, pois esse teu talento é uma dádiva! É algo de muito belo e raro!
Um abraço
João Paulo
Nunca dei relevo aos comentários de amigos e colegas no mesmo sentido. O comentário feito há algum tempo atrás pelo João Paulo fez-me parar para pensar no assunto. Agora que insistem quero deixar aqui o meu agradecimento por me comunicarem a vossa opinião. Nunca pensei a sério que seria capaz de publicar algo. Não sinto que é chegado o tempo certo. Não me sinto preparado, nem creio ter uma escrita madura para tanto. É verdade que o bichinho começou a rabiar. Desde que um professor de português no 11º ano me ensinou a usar a palavra escrita que sinto prazer em fazê-lo. Há grandes professores neste país e esse não esquecerei. Por enquanto vou cultivando esse prazer aqui mesmo, mas não esqueço o que acabei de ler. Até lá um muito obrigado pela vossa opinião.
Olá, mais uma vez!
Fico contente em saber que pensaste no assunto! É que os teus textos estão muito bem escritos e têm muita actualidade! É verdade! E não digas que a tua escrita não está suficientemente apurada ou que ainda não a madureceste suficientemente! São lindíssimos e dá gosto lê-los! Alguns têm alguma qualidade poética. Por vezes têm-me dado muito, mas muito que pensar. Muitas vezes tenho ficado a meditar maduramente naquilo que escreves e consigo até identificar-me com os teus pontos de vista.
Depois o problema de os publicares no teu blog é que não tens qualquer garantia de que alguém menos honesto (infelizmente gente dessa é o que por aí não falta) se aproprie dos teus textos e os plagie. É a velha questão dos direitos autorais! Cuidado com isso.
Um abraço e por favor continua a premiar-nos diariamente com mais textos e fotografias (e, porque não, de homens podres de bons! Risos!)
João Paulo
P.S. As curtas-metragens de temática gay eram fantásticas! Gostei imenso!
Olá, mais uma vez!
Fico contente em saber que pensaste no assunto! É que os teus textos estão muito bem escritos e têm muita actualidade! É verdade! E não digas que a tua escrita não está suficientemente apurada ou que ainda não a madureceste suficientemente! São lindíssimos e dá gosto lê-los! Alguns têm alguma qualidade poética. Por vezes têm-me dado muito, mas muito que pensar. Muitas vezes tenho ficado a meditar maduramente naquilo que escreves e consigo até identificar-me com os teus pontos de vista.
Depois o problema de os publicares no teu blog é que não tens qualquer garantia de que alguém menos honesto (infelizmente gente dessa é o que por aí não falta) se aproprie dos teus textos e os plagie. É a velha questão dos direitos autorais! Cuidado com isso.
Um abraço e por favor continua a premiar-nos diariamente com mais textos e fotografias (e, porque não, de homens podres de bons! Risos!)
João Paulo
P.S. As curtas-metragens de temática gay eram fantásticas! Gostei imenso!
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