Uma das minhas gajas, não aquela que trabalha comigo, uma outra de quem eu só falei aqui de raspão tornou-se hoje proprietária.
Há nove anos atrás, a meio de uma tarde atarefada de trabalho, recebi um telefonema que dizia: - Preciso da tua ajuda. Vou sair de casa com os meus filhos. Traz uma carrinha e vem ajudar-me a tirar as coisas daqui. O «daqui» era da casa onde ela vivia com o marido, em agonia matrimonial, há alguns anos. Penso que enquanto carregávamos os seus haveres ela deve ter dito que quem devia sair era ele e que um dia voltaria para lá. Em todos estes anos lutou por si, pelos filhos e por criar condições para recuperar a sua casa. A miragem daquela casa tornou-se uma âncora para o futuro, uma segurança, um lugar seu que é o que tem buscado todo este tempo.
No dia em que decidiu fracturar o seu casamento era uma mulher em sofrimento físico e com o espírito dilacerado pela tortura daquela relação. O diagnóstico médico veio confirmar o pior. Um tumor já lhe consumia o útero e o prognóstico era reservado. Seguiram-se semanas de sofrimento, passagem pelo IPO, incertezas e receios... Mas Lurdes é uma mulher com uma força interior como conheço poucas e jamais lhe passou pela cabeça deixar órfãos os seus filhos ainda crianças. Não demorou a regressar ao Algarve e começar a trabalhar, sim porque todos os tostões de que precisava era ela que os ganhava limpando e arrumando casas. O «ex» pouco ou nada contribuiu para ajudar a educar os filhos. A eles não podia faltar o indispensável: alimentação, educação e o amor de mãe. A renda do apartamento tinha que ser paga. Não tinha tempo para estar doente. Ajudei-a a mudar de casa pelo menos três vezes durante estes anos as outras duas mudanças já foi com a ajuda do novo companheiro. Instabilidade é uma palavra que conhece bem. Nunca baixou os braços.
A filha mais velha, minha afilhada, já encontrou com quem compartilhar a vida. O filho, o Ruben é estudante universitário e um ser humano fantástico. Todas as dificuldades não foram suficientes para que fosse uma mãe menor. Merecia um pouco de sorte na vida porque tem feito por tê-la como poucos.
Hoje ela realizou um sonho. Vai voltar para a casa onde os seus filhos deviam ter sido educados. Parabéns Lurdes.
Não foi fácil nem vai ser fácil daqui para a frente, mas há comprovadamente muita garra para viver no sangue que corre nas veias daquela gaja.
1 comentário:
Tu deves ser um daqueles amigos -tesouro
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