
Tinha eu aí por volta dos dez ou talvez já onze anos mal feitos quando decidi que não queria ter filhos. Estranha decisão para um puto de tão tenra idade que ainda não sabia nada da vida. E ainda estava mais longe de saber que a sua sexualidade iria confirmar essa decisão, não lhe criando grande dificuldade em levar por diante a sua efémera, juvenil e pouco ponderada decisão. Em 1975 o primeiro ano do ciclo preparatório leccionava uma disciplina chamada «Estudos Sociais» onde se abordavam temas que despertavam a consciência social de crianças que ainda gostavam de jogar ao pião e ir aos ninhos. Coisas do PREC, já se vê?!
Numa dessas aulas falava-se de crescimento demográfico, de fome, de equilíbrio e sustentabilidade do planeta Terra. Ainda na sala de aula fiz contas e ao juntar dois mais dois conclui que não devia contribuir para agravar o problema de excesso de população de que o mundo sofria. O sistema sócio-económico em que o mundo ocidental estava montado iria levar ao seu desmoronamento mais cedo ou mais tarde. Se havia tão grande parte da população a passar fome e a viver na mais abjecta pobreza enquanto o seu número continuava a aumentar todos os dias é porque algo de muito errado se passava. A população mundial não podia continuar a aumentar continuamente pois um dia o planeta não teria recursos para sustentá-los a todos por muito bom que fosse o sistema de distribuição da riqueza. Esta era a intenção do professor: mostrar que o sistema capitalista era insustentável a longo prazo. Na minha mente só o perigo do crescimento demográfico imparável ficou a ecoar, de tal forma que ali mesmo decidi que não poderiam contar comigo para aumentar o sofrimento da Terra pondo mais humanos a sugar a sua seiva.
Passados estes anos todos continuo a considerar que algo de muito errado se passa na cabeça dos políticos e demógrafos que defendem o aumento continuado da população. O sistema sócio-económico mundial favorece o crescimento demográfico para sustentar o crescimento económico e assim manter a vitalidade das sociedades e das noções. Todos nós já ouvimos falar do pesadelo que se abate sobre a Europa com a baixa taxa de natalidade, e consequente estagnação das populações o que provoca o envelhecimento das sociedades, a sua decadência e falta de vitalidade, a estagnação económica, a insustentabilidade da segurança social, entre outros males que daí vêem ao mundo. Ora eu continuo a olhar para o processo de crescimento da espécie humana como insustentável a longo prazo. O planeta não conseguirá sustentar indefinidamente as populações humanas que cada ano precisam de mais alimentos, mais matérias primas, mais energia, mais espaço para viver condignamente. Logicamente o espaço necessário para alojar as comunidades de Homo Sapiens Sapiens é subtraída às outras espécies. Não é por acaso que todos os anos aumenta o número de espécies em vias de extinção, que se avolumam os problemas ambientais e os equilíbrio do planeta fragilizado e se avança um pouco mais para a sua ruptura total.
Não entendo o que vai na cabeça dos políticos e dos demógrafos que defendem que a população tem que aumentar ininterruptamente até que o planeta diga basta!Não haverá uma segunda via de preservação da espécie humana que não implique a destruição das outras espécies, o esgotamento dos seus recursos e a ruptura do equilíbrio ecológico? Para quem manda deve ser mais fácil manter esta rota de colisão porque ela não está eminente e permite fazer as populações acreditarem que não há outro caminho para garantir o seu bem estar futuro do que fazer filhos suficientes para que a população cresça e assim cresça a economia, se sustentem as reformas e se garanta o equilíbrio social dos nossos estados-nação.
Infelizmente é tempo de começar a pensar em alternativas a este sistema porque o equilíbrio do planeta Terra esta a chegar ao fim, os recursos começam a escassear e as outras espécies a ver os seus territórios reduzidos a ponto de não ser possível evitar a sua extinção. O Planeta começa a cobrar os excessos cometidos pelas populações de seres humanos e estou em crer que se o reequilíbrio não for conseguido por uma auto-limitação voluntária será conseguido pela natureza que com catástrofes naturais, reduzirá o excesso de população por falta de alimentos, por falta de habitat ou simplesmente por falta de condições ambientais para a sustentar.
Parece uma perspectiva muito catastrofista do futuro? A mim parece-me a muito realista. Mas como qualquer humano espero que só venha a acontecer depois de eu ter abandonado este mundo que apodrece a olhos vistos e poucos se importam.
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