segunda-feira, junho 25, 2007

ÁGUALUSA E ALMA SAUDOSISTA



José Eduardo Agualusa é um daqueles escritores filhos da lusofonia que tem o coração repartido pelos três continentes que o Atlântico abraça. Nascido no Huambo, Angola, tem ascendência portuguesa e brasileira. Águalusa conhece bem a alma dos povos que falam português sobretudo os três cujo sangue lhe corre nas veias, e também o de Moçambique. Falando sobre os portugueses comenta que uma das frases mais queridas dos taxistas portugueses é: - «Isto nunca esteve tão mal!» e logo a seguir: -«Antigamente é que era bom». Nada mais nosso do que falarmos mal do nosso. Está-nos no sangue a lamuria saudosista e o gosto por desgastar a imagem do que somos.
Será que isto nunca esteve tão mal? Pensando com objectividade quase sou levado a contrariar dizendo que isto nunca esteve tão bom. Os dias que vivemos não são razão para grandes euforias, é verdade, mas quando olho para a vida dos portugueses e a comparo com os meus dias de criança, de adolescência ou mesmo com há vinte anos atrás esta atitude de depreciação das condições de vida no país parecem-me ridículas. Antigamente é que era bom? Quando? Quando Salazar fechava o país a sete chaves e nos mandava para a guerra nas colónias? Quando íamos ao poço buscar água em cima de um burro? Eu fui muitas vezes e não me parece que fosse tão bom assim. Hoje a maior parte dos portugueses goza férias, tem um carro, tem uma casa, faz refeições fora de casa, veste bem, vai ao cinema e faz tantas outras coisas que a miséria do antigamente nem lhes permitia sonhar. Estão sufocados em dívidas para terem tudo isso? É verdade, as finanças nunca foram o nosso ponto forte!
Eu nasci nesses dias do candeeiro a petróleo, do burro e da enfusa de água fresca na cozinha e da carne de porco salgada. Cresci a ver como as condições de vida melhoravam de ano para ano, porém cheguei ao meu primeiro emprego olhando os turistas que chegavam ao Algarve com inveja do seu ar endinheirado e, lá do fundo do meu salário de estagiário, repetia para mim vezes sem conta que um dia eu estaria do lado de lá, sentado junto à piscina ao entardecer, bebendo um Dry Martini, com azeitona e tudo, enquanto aguardava o início do jantar num qualquer hotel junto ao paraíso e não com uma bandeja na mão e um papillon ao pescoço dizendo «Yes Sir».
Trabalhei depois muitos anos no aeroporto de Faro e quando a porta das chegadas se abria e eu olhava a saída de gente feliz acabada de chegar de férias jurava para mim já não faltar muito para também eu sair por aquela porta regressado de férias.
Olhar para o país como se vivesse os seus mais negros dias é deprimir-nos como povo, denegrir as nossas capacidades e amesquinhar os sonhos de todo um povo que trabalha e se esforça por fazer deste país um lugar cada vez melhor para se viver.
Eu não o troco por nenhum outro do mundo, embora não exite em ir ver como por lá se vive sempre que possível.
Já agora, José Eduardo Águalusa publicou recentemente ««As Mulheres do meu pai»», uma boa opção de leitura para as férias de 2007

1 comentário:

Anónimo disse...

Se me permite, e não desqualificando o J.E.A., sugeria, em alternativa, para leitura de férias, o livro do angolano Ondjaki «Os da minha rua».

Quanto ao seu comentário, a propósito de uma afirmação de J.E.A., subscrevo...

(Ameijoas? Hum..., bem bom!)