Nos próximos dias regressarei ao tema: Paris. Agora que a memória está fresca será mais fácil compartilhar convosco não só os acontecimentos, mas sobretudo o efeito que tiveram sobre mim.
Como já referi noutro post, Paris recebeu-nos com uma temperatura inesperadamente agradável a ponto de termos optado pela manga curta e o Shwasy ter lamentado não ter levado calções para ele e para o filho. O despertador ficou de nos fazer saltar da cama às 6:30, hora portuguesa! Eu que acordo às 7 para ir trabalhar estava a madrugar para ir para a Eurodisney com o pequeno almoço já tomado. Enfim, milagres acontecem!
Marne-La-Vallée fica bem fora da cidade. O metro não chega lá, mas o RER sim. Mudamos de meio de transporte, mas continuamos como toupeiras a viajar no sub-solo parisiense, não mudamos de bilhete! Ao chegar ficamos a saber que tínhamos que desembolsar um total de 75 euros para sair da estação. Bem o que eram 75 euros comparados com o dia de emoções que tínhamos pela frente?
A entrada do parque parecia a avenida da Liberdade em dia de manifestação. O puto estava em pulgas e não era para menos, parecia que estávamos a aceder a um mundo novo onde tudo era divertido, perfeito e fantástico. E assim era. Tudo havia sido planeado para nos sentirmos Senhores daquele mundo impecável, só os preços para usufruir desse dia maravilhoso eram medonhos.
Era um mundo maravilhoso para a sortudas crianças que vivem deste lado do mundo. Enquanto começava a sentir as pernas pesadas e os pés doridos dei comigo a pensar como são privilegiados os filhos daqueles que nasceram no lado certo do mundo. Os outros nem sabem que a Disney existe, passam fome, não tem que vestir, bebem água inquinada, morrem com diarréia, trabalham 12 ou mais horas por dia por quase nada, ficaram órfãos, vivem nas ruas...
Impressionou-me o número de crianças deficientes cujas famílias compensavam com o delírio do mundo Disney, o infortúnio de terem nascido com síndroma de Down e outras limitações físicas e psíquicas que nunca os deixarão ter as mesmas oportunidades dos outros que saltavam, corriam e gargalhavam a cada novo divertimento, a cada balão, a cada aceno do Pateta.
O Space Mountain é fantástico. Adoramos as emoções da viagem espacial.
O parque estava repleto de papás vindos de todo o mundo dispostos a facultarem um dia inesquecível aos seus filhotes. Sem o saberem contribuíram,e muito, para tornar o meu dia ainda mais divertido. Sem a visão daqueles corajosos trintões não sei se teria aguentado a dor nos pés e o cansaço que me invadiu depois de um miserável almoço pago como se de um banquete se tratasse.
O dia terminou precipitadamente com uma trovoada medonha que se abateu sobre o parque e encharcou até aos ossos adultos e crianças sem excepção. Um céu negro descarregou uma chuvada forte, acompanhada do estrondo de pedras a estilhaçar-se sobre as nossas cabeças. Foi o regresso à normalidade. A chuva não voltou a abandonar-nos até que regressamos a Portugal.
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