
As cidades portuguesas cresceram e esqueceram de forma cruel as crianças. As nossas crianças estão reféns em casa, vítimas dos automóveis, da falta de espaços verdes, de uma paranoia de segurança por parte dos pais. As crianças que habitam nas cidades crescem de forma desequilibrada. Têm tudo dentro de casa, mas falta-lhes a liberdade de brincar na rua.
Eu cresci no campo num tempo em que não se temia o trânsito, os raptos, os pedófilos, os criminosos que fazem mal às criancinhas. Fui um felizardo. Como seria eu se não tivesse jogado à bola, à apanhada, à barra no largo do caminho. Teria sido tão feliz se tivesse aprendido a nadar numa piscina em vez de na Ria Formosa, nas tardes de Verão? Teria a mesma experiência de vida se tivesse brincado fechado em casa e não tivesse calcorreado os campos, as hortas, os matos, as salinas e a ria com o resto do bando de crianças da mesma idade?
Cada vez mais os pais se veêm obrigados a manter os filhos fechados frente à televisão, à consola de jogos ou ao computador, não lhes permitindo uma vida activa na rua. A rua não tem condições para os mais pequenos brincarem. Os progenitores procuram remediar a situação inventando actividades para que os seus filhos possam exercitar minimamente o corpo. Levam os meninos ao ginásio, à natação, ao futebol, à música, ao balet, à explicação e não lhes deixam tempo para brincar. Brincar é fundamental para que a criança possa vir a ser um adulto saudável. E brincar na rua é também por si motor de equilíbrio fisico e intlectual para os mais novos.
É altura de começarmos a repensar as nossas cidade e entregá-las às pessoas e retirá-las aos carros por muito que isso custe ao nosso comodismo. Noutros países já se fecham ruas ao trânsito para que as crianças possam brincar. Criam-se e inventam-se espaços próprios para que os pequenos possam inventar brincadeiras. Andar na rua, descobrir a sua cidade é importante para se criar o sentimento de pertença a um lugar. Muitos adultos falam com orgulho da descoberta e da vida no seu «quintal». Os seus filhos não têm essa experiência.
Como serão os adultos que em criança brincaram fechados em casa frente a um ecrâ? Serão adultos felizes, emocionalmente equilibrados e fisicamente saudáveis?
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