
A epidemia espalhou-se um pouco pelos quatro cantos do mundo nos finais do mês de Maio. Não atacou todos com a mesma intensidade, mas as doenças contagiosas são assim; não se percebe porque razão contamina uns e deixa outros indemnes. O número de pessoas afectadas cresceu grandemente nos primeiros dias de Junho e está incontrolável. Os especialistas prevêem que a sua intensidade comece a decair apartir do final do presente mês. À semelhança das gripes de Inverno é extremamente contagiosa e até pessoas que normalmente estariam imunes ao virus acabam por ser contaminadas e sofrer mais ou menos intensamente.
Esgueirando o olhar sobre o que se passa em Portugal a situação parece extremamente grave. Por todo o lado os sintomas são notórios: bandeiras nas janelas, nos automóveis, vestida sobre a forma de T-shirt, cachecóis vermelhos e verdes sobre a chapeleira do carro, gente vestida de vermelho e verde com números nas costas e nomes de futebolistas. Enfim a doença a vermelho e verde inundou cada recanto do país. Os especialistas dizem que o virus ataca habitualmente de dois em dois anos. Resulta numa euforia desmedida, um optimismo sem explicação, mas também traços de ansiedade e nervosismo são visíveis. Dura em média entre 15 dias e 1 mês e depois os portugueses voltam à sua tradicional atitude melancólica à beira da depressão trauteando um fado, rezando à Srª de Fátima e falando dos árbitros que prejudicaram o Benfica, sem grande gosto pela vida e vociferando cobras e lagartos sobre o seu destino lusitano.
É a sina de ser português. Um oásis chamado selecção nacional faz os portugueses sentirem-se iguais aos outros povos do mundo: orgulhosos do seu país. Sentem-se gente feliz sem razão para o ser. O Futebol é o elixir dos povos pouco patrióticos, não por que não o queiram ser, mas porque lhes falta as razões para tal. Os portugueses sentem que a sua selecção não os deixa mal, afinal o nosso futebol é o 7º do ranking da FIFA. Que outro sector de actividade nacional está no «top ten» mundial? Pois é, nenhum! Projectamos o nosso patriotismo como uma doença viral que de tempos a tempos contamina quase todos e cuja origem está bem definida.
Quando um português rebusca nas suas memórias colectivas as razões para se orgulhar do seu país automaticamente recua 500 ..., 500 anos e vai até ao Cabo das Tormentas, até à India ou à Terra de Vera Cruz e tem dificuldade em avançar no tempo. Faz um esforço e lembra-se de camões, num esforço do 1º ministro do rei D. José I, da reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755 e... e dos magriços de 1966! Outra vez o futebol! E falam de Pessoa e de um país com muito sol, praias lindas, paisagens magníficas, gente simpática e acolhedora e... do fado?
Quando se fala do orgulho de ser alemão fala-se da Mercedes, da BMW, da Siemens, e da Miele, de Goethe e de Beethoven ou de Wagner, etç. Os espanhois falam de Picasso, de Dali, do Flamengo, de Barcelona e de Madrid, da SEAT e da Indetex, os italianos da moda, os franceses, os suiços, os holandeses, os suecos e todos os outros tem orgulho no seu presente. Realizam, inovam, fazem acontecer, movem o mundo, lutam por ser e fazer melhor. Têm um passado, mas sobretudo um presente de que se orgulham sem ter de recuar séculos.
É este presente que nos falta. Uma geração que faça acontecer. Uma população que tenha garra para fazer acontecer coisas.
Enquanto isso o virus do patriotismo das bandeiras desfraldadas nas janelas e nos carros empurrado por 11 marmanjos a correr atrás de uma bola, será apenas uma manifestação doentia do orgulho de ser português. Vem e vai com os sucessos da selecção, não é algo que viva dentro do peito. O patriotismo é resultado da identidade de um povo como nação alicerçada na sua cultura e nas suas tradições, mas fundamentalmente na ousadia das suas realizações que o impulsionam para a prosperidade tendo por base uma visão de futuro que é o cimento de uma nação. O orgulho de ser português não devia ser uma doença infecciosa antes uma vontade de lutar para vencer como lutam pela vitória as grandes selecções que disputam este Mundial de Futebol.
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