quinta-feira, junho 15, 2006

25 ANOS DEPOIS...

Vivia eu nos arredores de Lisboa quando um Sábado me debrucei sobre a banca dos jornais expostos e na primeira página do semanário Expresso um título atraiu-me a atenção. Falava sobre uma doença desconhecida que estava a matar os homossexuais masculinos na costa oeste dos Estadoos Unidos. Na mesma hora tive o presentimento que aquilo era importante e decidi comprar o jornal. Já não lembro dos pormenores da notícia, mas li com expectativa o que relatava. Eu tinha 18 anos, não tinha tido ainda a minha primeira relação homossexual embora a tentação fosse enorme. O que fiquei a saber deixou-me assustado e de imediato senti que aquela doença iria ter repercursões enormes na minha vida. Não me enganei. Procurei nas semanas seguintes mais notícias sobre o tema e pouco a pouco fui-me apercebendo que nada seria como antes daí para a frente. Desde a minha primeira vez estive sempre presente o risco de contrair a maldita doença. Sempre evitei situações de risco o que não quer dizer que não as tenha corrido.

Ao longo de todos estes anos conheci gente que entretanto morreu com SIDA, tive amigos que contrairam a doença, e até sei de alguém com quem já tive relações sexuais que é seropositivo. Por uma ou duas vezes convenci-me que estava doente e sempre que vi o resultado negativo do teste foi como nascer de novo. Desde o início que a minha vida sexual tem a sombra deste fantasma. Já me habituei a viver com a guilhotina por perto, embora sempre com a cavilha sob controlo.

Entretanto apesar dos esforços não se descobre cura ou vacina para o Sindroma de Imunodificiencia Adquirida. A luta contra a doença passa ainda e só pela prevenção. O «cocktail» fármacos que entretanto prolongam a vida são um engano. A qualidade de vida dos seropositivos é muito pouca. Nos países desenvolvido os resultados desta luta tem surgido. Baixo nível de infecções, a pandemia parece temporariamente controlada. Nos países economicamente mais débeis os resultados deixam muito a desejar. Não há forma de controlar e prevenir a doença sem meios de comunicação eficazes, sem campanhas de informação, sem preservativos, e sem se conseguirem mudar hábitos sexuais arreigados e crenças inviáveis. O resultado é 25 milhões de mortos em 25 anos de luta contra a SIDA. A África, a Ásia são as zonas mais afectadas, mas também a América Latina, Caraibas e Europa de Leste são zonas onde a doença se propaga sem grande oposição.

E Portugal?! Portugal é o país da Europa ocidental com maior incidência de casos de SIDA por cem mil habitantes! Um caso que faz pensar, senão vejamos: vivemos num país onde quase 100% da população tem televisão e rádio, o sistema de saúde funciona deficientemente, mas funciona e não se pode comparar aos países pobres de África, têm sido feitas campanhas de prevenção, campanhas de troca de seringas e de incentivo ao uso de preservativos nas relações sexuais. Então o que tem falhado?
Em minha opinião duas coisas: a mentalidade do português que acredita que essas coisas só acontecem aos outros ( tal como os acidentes de viação, a SIDA, a dependência de drogas, etç.) e a atitude dos governantes que desde os primeiros tempos nunca levaram a sério o risco da SIDA para a população em geral.

Os portugueses são por natureza o povo do depois logo se vê! Não reage por antecipação de forma preventiva, tenta remediar depois do mal estar feito. Para quê se preocupar com algo que ainda não aconteceu? Prevenção é uma chatice. A famosa frase muito nacional que diz: Um dia todos temos que morrer, revela bem esta mentalidade do depois logo se vê.



Do outro lado quem tem a responsabilidade de sensibilizar os cidadãos para o risco e para a prevenção até hoje não encarou de frente o problema. Nos primeiros anos pensaram: bem isto é uma doença de paneleiros e drogados, não vale a pena gastar dinheiro com prevenção. Quando morrerem, matamos dois coelhos com a mesma chumbada! Dominamos a doença e extinguimos os drogados e as bichas! Bingo! Depois a coisa alastrou e possou para as prostitutas que por sua vez infectaram os machos latinos que não se quizeram proteger e até pagam mais para não usar camisinha. Com o viagra a população mais idosa regressou à vida sexual activa e foi em busca de prostitutas para reaprender a andar de bicicleta, recusou o preservativo e ficou seropositiva. Os maridos infectaram esposas fiéis e hoje ninguém parece dar conta da rolha.

Para um povo que tem hábitos sexuais onde o recurso à prostituição é uma prática corrente, governo faz campanhas de prevenção mal direccionadas, a educação sexual nas escolas é anedótica, esquece-se que o problema pode atingir toda a população e que já não existem grupos de risco. Aliás os homossexuais hoje são os mais sensibilizados para o risco que correm embora ainda muitos gostem de brincar à roleta russa.

Está a acontecer uma explosãode seropositivos entre os heterossexuais e a população masculina acima dos 50 anos. As campanhas continuam a esquecer estes «grupos de risco». A atitude moral conservadora que grassa na nossa classe política não permite enfrentar abertamente o problema. A hipócrisia política é mais forte que a saúde dos portugueses.
Temos 32 mil infectados com o HIV, provavelmente mais, mas as políticas de combate são tacanhas e moralistas. Resta-nos o consolo de alguns países da Europa de leste estarem em piores lençois porque de outra forma poderiamos comparar-nos aos países africanos e aí seriamos os melhores em prevenção. Temos sempre este fraco consolo e não temos vergonha!

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