quarta-feira, janeiro 25, 2006

TRAVESSIA DO DESERTO










TRAVESSIA DO DESERTO

Pelo deserto,
Com meus pés, arrastados, sangrando,
Lavrei as dunas em lamento.
Peregrinei, sem fim, pelo caminho certo;
Não vou ceder, agora, à tortura do vento!
Alimentei meu sangue de sol e de ar.
Matei a sede com água do mar.
Piso, agora, terra proibida?
Que importa?
Estou às portas da Vida!


Arremesso o olhar por uma fresta
Do postigo entreaberto:
Vejo, finalmente, a Vida de perto.
Vislumbro ambiente de festa!
Há paz no olhar das crianças.
Há fontes de água madura;
Avisto cheiro de chuva no ar!
Há nos rostos fartura!
Há Vida nesse lugar!

Aceno...
Nada acontece?!
Sem compreender; insto: - Abram!
Arremeto uma nova prece:
-Nada vos quero roubar!
Tenho nos meus braços a força,
E força de vontade de pagar.
De dentro, sopra um frio indiferente.
Estremeço. E a porta resiste.
Insisto...
Afinal?

Esgueirei meu corpo sobre o portão,
Desfilei desejos e sonhos sem mal.
Temeram-me, como se teme um animal!
Rasguei os punhos em vão!
Bati, insistente, à porta proibida,
Mas não me deram nem um pouco de Vida
Fugi de cães a ladrar!
Matei a fome a roubar.
Bebi, outra vez, a água do mar.
Empurrei a porta e havia sempre outra porta para empurrar...
Derrubei-a desvairado!
E do alto irromperam demónios de olhos claros
com a alma já morta.

Sentei-me na soleira de pedra fria.
Senti a alma vazia...
À porta,
Senti o mundo mudar.
Reergui meu sonho da lama;
Recomecei a caminhar.
E com os punhos fechados
Voltei a clamar.

- As sobras dessa Vida!
Os restos da ilusão!

Quero, apenas, trabalhar!
Quero, apenas, um pouco de pão!

Mexilhão

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